terça-feira, 19 de novembro de 2019

Meu Filósofo Favorito

André Comte-Sponville, autor de Pequeno tratado das grandes virtudes, um grande e belo texto, tornou-se meu filósofo favorito, depois de ler algumas das virtudes do seu "pequeno tratado" e assistir a essa lúcida entrevista.
Nada como a lucidez do conhecimento e a experiência e gentileza de quem entende e possui ideias afins.
Vale o tempo e a escuta. Aqui o autor fala de educação e política e dá uma aula de filosofia e simplicidade. Confiram (en français):

https://www.youtube.com/watch?v=ctBmOsws69c

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Buy local

O livro didático do segundo ano traz como tema de aprendizagem e discussão a globalização. Dentre os subtemas que tocamos nas discussões estão tecnologia, mercado de trabalho, mão de obra escrava, "aldeia global", consumismo, impactos no meio ambiente ou questões ambientais, dentre outros. 

Há pouco tempo, soube que um site de que eu gosto muito de comprar livros online utiliza mão de obra escrava e fiquei muito decepcionada, porque em praticamente quase dez anos de consumidora do site nunca tive o que reclamar, dada a sua eficiência no processo de vendas e entregas, inclusive internacionais. É fácil, rápido e prático, economizando tempo e trabalho de ir à livraria e achar o título. Falo da Amazon.com e Amazon.com.br . Ao saber sobre empresas que utilizam trabalho escravo, eu tento não incentivá-lo, desistindo de ser cliente delas. 

Hoje, ao buscar um título que me interessa, busquei o preço no site da Amazon apenas para comparar com as livrarias concorrentes e qual foi a minha surpresa, quando, no próprio site da Amazon, ao clicar no link da autora do livro - Rebecca Solnit, li o seguinte: 


About Rebecca Solnit

Writer, historian, and activist Rebecca Solnit is the author of seventeen books about environment, landscape, community, art, politics, hope, and memory, including the updated and reissued Hope in the Dark, three atlases, of San Francisco in 2010, New Orleans in 2013, and New York forthcoming in October; 2014's Men Explain Things to Me; 2013's The Faraway Nearby; A Paradise Built in Hell: The Extraordinary Communities that Arise in Disaster; A Field Guide to Getting Lost; Wanderlust: A History of Walking; and River of Shadows, Eadweard Muybridge and the Technological Wild West (for which she received a Guggenheim, the National Book Critics Circle Award in criticism, and the Lannan Literary Award). A product of the California public education system from kindergarten to graduate school, she is a columnist at Harper's and frequent contributor to the Guardian newspaper. 
 She encourages you to shop at Indiebound, your local independent bookstore, Powells.com, Barnes & Noble online and kind of has some large problems with how Amazon operates these days. Though she's grateful if you're buying her books here or anywhere....
  ( From: https://www.amazon.com/Rebecca-Solnit/e/B001IODD3I?ref=sr_ntt_srch_lnk_1&qid=1552745910&sr=8-1 - grifo meu . March 3, 2019. Grifos e destaque meus.)

Fiquei muito surpresa ao ler essas últimas linhas sobre a autora e fui até as livrarias citadas acima para conferir e comparar preços do livro e postagem internacional. Foi quando achei a história da  Amazon, que pode ser conferida neste link
O que mais gostei ao ler sobre, recompensando minha decepção pela fidelidade que tinha ao site, foi a capacidade de organização e a coragem de exposição das livrarias locais para combaterem a injustiça e concorrência desleal da Amazon. Para impedir o monopólio e abrangência gigantes da multinacional, as livrarias locais e seus proprietários formaram uma rede com informes e ações que permitem aos consumidores terem acesso as ações da Amazon contra o desenvolvimento de direitos básicos como saúde, emprego e educação para a população das comunidades locais. 
Ou seja, a Associação Americana de Vendedores de livros empreendeu uma luta declarada à Amazon, publicando seus desserviços à população consumidora, o que conquistou a atenção e apoio até de escritores, no caso, Rebecca Solnit, divulgado no próprio site da Amazon.  Isso é muito significativo e importante em um sistema que se diz democrático. 
A minha decepção inicial em saber sobre a escravização da mão-de-obra pela Amazon muitas vezes titubeou, ao pensar no custo benefício e financeiro quanto aos valores dos livros, que, para o meu consumo, são pagos em dólar, ou libras, ou euros, por serem estrangeiros. 
Mas depois de ler sobre o impacto do consumo na Amazon, não tem como ficar indiferente a tudo que ele provoca às comunidade locais, às livrarias locais, ao próprio sistema econômico e político mundial - um mercado de monopólio financeiro, que se sustenta com a exploração das pessoas mais pobres em recursos e informação. 
Como professora incentivadora da leitura e do acesso ao conhecimento de forma mais democrática, não posso continuar a consumir livros vendidos pela Amazon ainda que sejam mais "baratos" do que nas demais livrarias. A diferença não compensa o alto valor que pagamos para ter um mundo desigual. E depois nos queixamos de violência, criminalidade e "marginais" criminosos que matam, que estupram que violam as regras sociais que constituem uma convivência ética e mínima em conflitos. Como lidamos com os gigantes autorizados a burlar o fisco, a privar pessoas de emprego e tudo o que ele possa lhes render?  A propósito, o livro que fui pesquisar de Rebecca Solnit, é Call them by their true names e vou comprá-lo na Saraiva. Espero, que Amazon, como dizia Edgar Allan Poe, no famoso "The raven", "never more". 





domingo, 10 de março de 2019

O carnaval este ano foi véspera do dia das mulheres. Feminino e feminista

Fevereiro é o mês do Carnaval no Brasil que, esporadicamente, ou por um desvio da matemática dos dias caiu este ano em março, um pouco antes do fatídico dia Internacional da Mulher, dia 08. Pensando sobre o carnaval, o mês de fevereiro e ser mulher nesse dia, andei refletindo sobre dois filmes, que assisti em fevereiro:  Fevereiros, de Márcio Debellian e Diana Vasconcelos e  A Esposa, de Björn Runge. Os dois valem como contrapontos que se interpõem aos trágicos eventos de feminícidio, misoginia e intolerância feminina tão presentes já nesse início de 2019. 

Ambos os filmes trazem a mulher como protagonista. Fevereiros, apesar de no trailer e sinopse a ênfase cair sobre a homenagem da Mangueira à Maria Bethânia, o filme é, na verdade, sobre a intérprete da nossa MPB: suas crenças, principalmente, sua devoção aos Orixás e às Santas do Catolicismo e sua fé na festividade religiosa de sua cidade Natal, Santo Amaro da Purificação. A narrativa passa pelo Carnaval, também uma celebração que, ao homenagear Bethânia, homenageia também suas origens, sua força contida na voz, nas palavras empostadas e na representação como artista de um país tão diverso. Nas vozes de Caetano Veloso, da própria Bethânia e de sua irmã mais velha, Mabel Veloso, o filme parece uma conversa informal em família. A cumplicidade entre ela e Caetano e suas brincadeiras de criança, são as partes hilárias, que trazem leveza, humor e nos fazem esquecer que estamos numa sala de cinema, com estranhos do lado. O filme é bonito, muuuito delicado e muito ... não sei definir. O filme é muito. O muito do que deveríamos escutar de fevereiro a fevereiro, passando por março e chegando em janeiro sem tragédias de vales ou brumas, de barro ou de lama, de vidas incendidas ou mulheres espancadas. Aliás, o filme é uma série de honras à mulher. Primeiro na figura de Bethânia e sua força de voz, uma mulher que canta, que entoa, que recita, que dança, que reza... Depois, às suas devoções femininas: Oxum, a Deusa das águas, Iansã, a rainha do mar, Mãe Menininha, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Purificação... do princípio ao fim... o filme é mulher. Até na própria escola de samba, se pensarmos agora, no padrão que "menina veste rosa e menino veste azul", a Mangueira foi a escolhida e o verde e o rosa estão lá, sinalizando que as cores são de propriedade de quem quiser, porque o Carnaval é a possibilidade do irreal, da inversão de tudo, até das cores. E o verde, todos sabem, é uma variante do azul, que talvez, enjoado da tristeza e mesmice, resolveu se unir ao amarelo e se disfarçar em outro tom... (Até as cores devem poder escolher?!)

A Esposa, por sua vez, trata da história de um escritor que ganha o prêmio Nobel de Literatura e, festeja, com a esposa e o filho, as honras dos louros da premiação na Suécia. Naquele momento, a trama revela a importância da Esposa na vida do escritor homem, que a homenageia e a faz notável em seus discursos de agradecimento, mas que o público vê bem o lugar marcado de esposa, sua assessora de assuntos particulares e até profissionais. Até para atender a ligação comunicando-lhe a premiação, o escritor o faz na presença da esposa, revelando-se dependente dela para tudo - seu olhar, presença e opinião (tá, pode ser um companheirismo misturado com dependência... o final do filme fala por si).  Não era de se estranhar que no decorrer da trama, a história do encontro dos dois se revela e, de forma surpreendente, ficamos sabendo quem, é, realmente, o laureado com o Nobel.
Foi o primeiro filme que vi com a atriz Glenn Close, e a achei  muito fiel no papel da Esposa. Ela consegue ser protagonista no filme, sendo a coadjuvante na vida do marido? Será mesmo coadjuvante?
Os dois filmes me fizeram refletir sobre o que tenho pensando muito ao ver o crescente número de feminicídios noticiados na mídia. E que os filmes feitos por homens que retratam vidas reais e irreais de mulheres são, todos que assisti até agora (confesso que são poucos) muito delicados. O primeiro deles que me trouxe tal reflexão foi o do Caco Ciocler, Esse viver ninguém me tira, um documentário e homenagem à esposa do João Guimarães Rosa, D. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, que salvou várias famílias judias durante o holocausto.
Fiquei pensando no ódio, na coragem de ser cruel, na agressividade e violência com que um homem pode tratar uma mulher. A violência contra a mulher, é, do meu ponto de vista feminino, muito mais cruel em relação ao homem, porque parte do desequilíbrio de força física, para começar, e do próprio lugar de existência que a mulher ocupa. Em ambos, para não dizer em todos, estamos em desvantagem, desde o surgimento do mundo. O que leva alguém odiar quem está posto como inferior?
No dia 08, vendo as notícias dos protestos pela data, vi e ouvi a ministra dos Direitos Humanos e da Mulher comparar que ideologia da igualdade dá a entender que a mulher pode apanhar como homem. Mas quem disse que homem tem que apanhar também? Será mesmo que é a "ideologia de gênero"  é a causa de tanta violência e ódio?
O presidente, por sua vez, já afeito a declarações misóginas, disse que em seu ministério está tudo equilibrado com 20 homens e 2 mulheres, porque as duas valem pelos vinte. Ironias e brincadeiras à parte, porque, o papel de um presidente eleito não é para fazer brincadeiras de mau gosto, nem reproduzir discursos de ódio como fez em campanha e ainda insiste (é rídiculo explicar isso, mas na atual conjuntura, as coisas estão tão escabrosas que o twitter é interpretado como um diário oficial do país pelo próprio governo),  mas valorizar a vida de qualquer humano. Esse discurso com tom de piada não valoriza as mulheres ao compará-las com ministros homens e, ainda, anula os homens (aqui eu deixo de lado minha crítica quanto ao referido ministério, para falar da espécie humana, que parece estar em extinção também, dada a falta de humanidade visível por aí). Quem luta por igualdade de direitos não quer isso. E, além, as mulheres não querem valer pelos homens. Isso é o que se pensa sobre o feminismo erroneamente: uma guerra dos sexos sem fim, onde um pode e quer substituir ou exterminar o outro. Não é nada disso. Queremos respeito e igualdade no merecimento e tratamento desse respeito, por isso, a fala da autoridade máxima eleita, como sempre desde a campanha, foi tão infeliz ao dizer que as 2 valem por 20.
Além dessa explicação (des) necessária e infeliz sobre a desigualdade no ministério, o presidente disse ainda que nos (mulheres) quer sempre ao seu lado... É mesmo? E o que significa a sua contrarreforma da previdência, estendendo a nossa faixa etária para nos aposentar, o pacote anticrime do dr. Fantástico, que deveria chamar-se antivida, ao invés, além da paranoia do (anti) presidente autorizar armas dentro de casa. Pelo menos 4 são autorizadas! Não será surpreendente se, após esse desmando, em um país como o nosso, marcado pelas desigualdades socioeconômicas e muito carente de educação e ainda miserável em empatia e civilidade,  comecemos a ver nos noticiários que as principais vítimas dessa autorização de extermínio serão mulheres e crianças, ou inocentes, como já estamos vendo acontecer reiterada mente no Rio de Janeiro. 
Ficam incontestes a aversão e/ou ignorância desse (des)governo aos valores femininos, afeitos à sensibilidade de perceber-se como representante de outros e outras, de perceber os outros e outras e as diferenças que (n)os constituem.
A impressão que tenho é a de que ele, como os homens que violentam mulheres, não percebem sua força de humanos, de seres racionais e capazes de sensibilidade fora da barbárie, cumprindo como deveríamos, a evolução da espécie. O uso da força, infelizmente, não ficou no lugar em que deveria estar - da pré-história para trás.
E me pergunto sempre, quando me deparo com essas barbaridades atuais, para onde vamos enquanto espécie mesmo? Onde passou ou está parando o bonde da evolução, porque parece que estamos  o perdendo dia após dia, sem a possibilidade de embarcar.
Para nós mulheres falta um longo caminho, apesar das conquistas notáveis. Falta compreensão e sobretudo, agora, informação. Falar de ideologia de gênero nunca foi tão necessário como agora. Mas antes, falta entender o que é feminismo, ideologia e gênero. Um livro que me ajudou a me assumir feminista foi A cama na varanda de Regina Navarro Lins. Se todos, ou a maior parte de adolescentes, homens e mulheres pudessem lê-lo, antes de darem declarações equivocadas e repetirem discursos que incentivam preconceito, ódio e intolerância, poderíamos, talvez, nos relacionarmos de forma mais saudável,  condizente com nossa inteligência da espécie humana.
O Carnaval seria, então, só uma brincadeira no calendário. Leve e colorida como deveria sempre ser.


2019 já está

Final de ano (este post foi escrito em dezembro de 2018, mas só agora tive tempo de revisar e publicá-lo) e é inevitável não refletir sobre o ano que se despede e o que se anuncia. Fazemos mesmo o balanço do que foi e do que esperamos e queremos que venha. Dentre as compras inevitáveis está a agenda de 2019. Eu uso agenda e me sinto perdida sem ela. Cada vez menor durante os anos, porque acho que com o passar do tempo, é necessário tornar os compromissos mais leves, a organização deles também. Particularmente, 2018 foi um ano bom. Para mim, com emoções fortes, instáveis, surpreendentes. Estressei muitas vezes, fui estressada mais ainda e no final, ainda com estresses inesperados, tento manter o equilíbrio na medida do possível, uma vez que o ano foi medido, além do calendário, de muita surpresa e bombas emocionais. Aos poucos vou me desentoxicando... E o elixir detox, para mim, carrega boa dose de recolhimento e distanciamento do que alimenta minha fragilidade. 
Lembro dos versos do poeta Gonçalves Dias: "Não chore, meu filho. Não chore que a vida é luta renhida, viver é lutar." É. Na maior parte do tempo é mesmo uma luta renhida. Nesse fim de ano, no entanto, me lembrei, outra vez de outra poetisa (acho linda essa palavra!) - Elizabeth Bishop - e um poema dela: "A arte de perder". Em português: 

"A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério."
And also so beautiful in English: 
"One art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster. "

As palavras da poetisa fazem parecer simples perder e, de alguma forma, confortam e fazem olhar com menos importância e com mais consciência a realidade. E talvez a gente custa entender que perder é parte da luta renhida que o outro poeta descreveu. Não dá para seguir em frente carregando tudo, acumulando tudo o que já passou. É preciso escolher. Porque o futuro precisa de espaço para chegar. Como uma brincadeira de criança famosa que aprendi na aula de francês: Você vai para a lua e só pode levar um objeto, qual é sua escolha? 
Nesses tempos de fim de ano e fechamento de ciclo, vejo minhas perdas mais de perto, considero que merecem respeito pelo tempo em que não eram perdas. Agradeço a vida por elas. Na maioria das vezes, quando adolescentes, percebemos que são tudo, são o sentido da vida, como um ano de estudo em que não fomos aprovados, o primeiro amor que era só paixão e atração pelo/a outro/a, a amizade que se revelou apenas alguém semelhante, mas que não dá para ser amigo/a. E tudo bem. Pelo menos é esse o recado que devemos entender e, cada um do seu jeito, acolher a perda para que o ciclo se repita. Trazendo novas perdas. Novos ganhos. Nova vida. "Live and let die", como cantam os Beatles.


Meu Filósofo Favorito

André Comte-Sponville, autor de Pequeno tratado das grandes virtudes , um grande e belo texto, tornou-se meu filósofo favorito, depois de le...