Final de ano (este post foi escrito em dezembro de 2018, mas só agora tive tempo de revisar e publicá-lo) e é inevitável não refletir sobre o ano que se despede e o que se anuncia. Fazemos mesmo o balanço do que foi e do que esperamos e queremos que venha. Dentre as compras inevitáveis está a agenda de 2019. Eu uso agenda e me sinto perdida sem ela. Cada vez menor durante os anos, porque acho que com o passar do tempo, é necessário tornar os compromissos mais leves, a organização deles também. Particularmente, 2018 foi um ano bom. Para mim, com emoções fortes, instáveis, surpreendentes. Estressei muitas vezes, fui estressada mais ainda e no final, ainda com estresses inesperados, tento manter o equilíbrio na medida do possível, uma vez que o ano foi medido, além do calendário, de muita surpresa e bombas emocionais. Aos poucos vou me desentoxicando... E o elixir detox, para mim, carrega boa dose de recolhimento e distanciamento do que alimenta minha fragilidade.
Lembro dos versos do poeta Gonçalves Dias: "Não chore, meu filho. Não chore que a vida é luta renhida, viver é lutar." É. Na maior parte do tempo é mesmo uma luta renhida. Nesse fim de ano, no entanto, me lembrei, outra vez de outra poetisa (acho linda essa palavra!) - Elizabeth Bishop - e um poema dela: "A arte de perder". Em português:
Lembro dos versos do poeta Gonçalves Dias: "Não chore, meu filho. Não chore que a vida é luta renhida, viver é lutar." É. Na maior parte do tempo é mesmo uma luta renhida. Nesse fim de ano, no entanto, me lembrei, outra vez de outra poetisa (acho linda essa palavra!) - Elizabeth Bishop - e um poema dela: "A arte de perder". Em português:
"A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério."
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério."
And also so beautiful in English:
"One art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster. "
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster. "
As palavras da poetisa fazem parecer simples perder e, de alguma forma, confortam e fazem olhar com menos importância e com mais consciência a realidade. E talvez a gente custa entender que perder é parte da luta renhida que o outro poeta descreveu. Não dá para seguir em frente carregando tudo, acumulando tudo o que já passou. É preciso escolher. Porque o futuro precisa de espaço para chegar. Como uma brincadeira de criança famosa que aprendi na aula de francês: Você vai para a lua e só pode levar um objeto, qual é sua escolha?
Nesses tempos de fim de ano e fechamento de ciclo, vejo minhas perdas mais de perto, considero que merecem respeito pelo tempo em que não eram perdas. Agradeço a vida por elas. Na maioria das vezes, quando adolescentes, percebemos que são tudo, são o sentido da vida, como um ano de estudo em que não fomos aprovados, o primeiro amor que era só paixão e atração pelo/a outro/a, a amizade que se revelou apenas alguém semelhante, mas que não dá para ser amigo/a. E tudo bem. Pelo menos é esse o recado que devemos entender e, cada um do seu jeito, acolher a perda para que o ciclo se repita. Trazendo novas perdas. Novos ganhos. Nova vida. "Live and let die", como cantam os Beatles.
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