domingo, 2 de dezembro de 2018

Sweet Cecília learning English

Professores de Inglês 



HOJE qualquer pessoa pode aprender inglês com a maior facilidade: há institutos e cursos especializados, livros que dispensam professor, aulas pelo rádio e pela televisão, métodos tão modernos que nem me atrevo a descrever, com medo de me sentir inatual. Mas houve um tempo em que não era assim: os professores de inglês eram difíceis de encontrar, os alunos também não pareciam muito numerosos, a literatura francesa dominava com uma encantadora prepotência, e parece que todo brasileiro educado devia saber, em matéria de idiomas, apenas português e francês.
Mas, por ter descoberto Keats Shelley, nem sei bem como eu andava à procura de quem me ensinasse inglês, fosse por que método fosse, contanto que eu pudesse chegar à poesia inglesa com a maior rapidez possível.
Comecei a frequentar um instituto onde havia muitos cursos de arte e literatura. Parecia-me que aquele era o caminho. E dispunha-me a uma dedicação total aos meus exercícios. Mas a boa professora, embora sem ser inglesa, mas com cursos no estrangeiro, grande prática em aulas particulares e outras especificações, iniciou suas aulas com um pequeno discurso sobre a absoluta necessidade de se conjugar perfeitamente os verbos "to be" e "to have", antes de se   conhecer sequer uma palavra do vocabulário.
Ora, nem todos os estudantes haviam descoberto Keats ou Shelley, e freqüentavam as aulas por simples obrigação. Ninguém estava pensando em versos ingleses: nem mesmo a professora. E foi um tal de recitar indicativos, condicionais e subjuntivos, presentes, futuros e passados, ora perfeitos, ora imperfeitos, ora mais que perfeitos, afirmativa, negativa e interrogativamente, que aqueles solos e coros me conduziam a uma irresistível sonolência.
Mas havia salas próximas em que se estudavam piano e violino. De modo que eu podia descansar na música, sempre que os verbos chegavam àquele ponto de monotonia em que só me restava ou enloquecer ou dormir.
A minha segunda professora de inglês era inglesa mesmo. Também acreditava na eficácia dos verbos "to be" e "to have". Acrescentava-lhes ainda o "to get", ao qual se referia com um sorriso tão carinhoso que até dava vontade de começar por aí. Mas essa professora tinha um método encantador: oferecia-me uma xícara de chá, para acompanhar as aulas. Sua sala era absolutamente igual às que se vêem nos livros ilustrados para o ensino do inglês. Exceto a lareira, tudo estava lá. E como eu já sabia um pouco de verbos, passamos àquelas frases em que o chapéu ora é nosso, ora é da nossa prima e o gato ora está embaixo da mesa, ora em cima da cadeira. Mas era tão difícil chegar a Keats e a Shelley!
A terceira professora gostava de histórias de fantasmas, de sinos que batem à meia-noite, e em cima da sua mesa havia uma bola de cristal, por onde ela adivinhava o futuro. Mas no meio das histórias levantavam-se às vezes o "to be" e o "to have" e ela me pedia para recitar todos os seus modos e tempos acompanhando os meus esforços com um sorriso que talvez não fosse completamente macabro, mas era bastante assustador.
Feitas essas primeiras experiências, pareceu-me melhor ir diretamente aos autores, e, de vez em quando, aperfeiçoar-me por meio de quantos livros de "inglês sem mestre" fossem aparecendo.
Encerrado o ciclo das professoras, começou o dos professores. Um era persa, e dava-me a traduzir sentenças filosóficas, sem se ocupar dos modos e tempos do "to be" nem do "to have". O outro vinha da Austrália: contava histórias da feitiçaria (esse era para o inglês falado), mas no meio das histórias ficava com tanto medo do que estava contando que era preciso tranqüilizá-lo e mudar de assunto.
Por isso, no dia em que visitei a casa de Keats, em Roma, não pude deixar de pensar com ironia e tristeza: como são longos, às vezes, os caminhos da vida! E quanto tempo se pode levar para se chegar a um Poeta!

In: MEIRELES, Cecília. Ilusões do Mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
Foto: Google Images

sábado, 1 de dezembro de 2018

"Caetano Veloso: Dark Times Are Coming for My Country"

Caetano also writes in English. And he loves our country and people. So do I.

https://www.nytimes.com/2018/10/24/opinion/caetano-veloso-brazil-bolsonaro.html?action=click&module=RelatedLinks&pgtype=Article 

Grammar lesson: Present Perfect or Simple Past?

Marcelo Rubens Paiva teaching us:

https://www.nytimes.com/2018/10/29/opinion/what-the-brazilian-dictatorship-did-to-my-family.html

Cazuza profeta

"O tempo não para" não é só novela da Globo. É uma linda composição do saudoso Cazuza em tempos de pós-ditadura no Brasil e, por incrível que pareça, muito atual.  A letra fala por si.

"Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não, não para
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe, é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam um país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não, não para
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
Não, o tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não, não, não, não, não para."


No woman no cry... No woman no cry...

"(...) Se você realmente valoriza a educação e se preocupa com as condições de trabalho do professor, não ensine seu filho a tratá-lo como um inimigo que não tem direito à opinião e precisa ser filmado para "aprender". 
Professores não precisam ser patrulhados. Precisam ser ouvidos. E tenho dúvidas de todo movimento que diz o que é bom para a sala de aula sem ouvir o professor...." - Veja mais em https://matheuspichonelli.blogosfera.uol.com.br/2018/11/07/nossos-filhos-querem-filmar-o-professor-e-agora/?

"Meu partido é um coração partido." E as ilusões? Estão todas perdidas?

Título VIII
Da Ordem Social
Capítulo III
Da Educação, da Cultura e do Desporto
Seção I
Da Educação

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
        I -  igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
        II -  liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
        III -  pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
        IV -  gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
        V -  valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas;
        VI -  gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
        VII -  garantia de padrão de qualidade;
        VIII -  piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal.
    Parágrafo único. A lei disporá sobre as categorias de trabalhadores considerados profissionais da educação básica e sobre a fixação de prazo para a elaboração ou adequação de seus planos de carreira, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Constituição da República Federativa do Brasil, 1988. Disponível em: http://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_12.07.2016/art_206_.asp (Acesso 01/12/2018)

Meu Filósofo Favorito

André Comte-Sponville, autor de Pequeno tratado das grandes virtudes , um grande e belo texto, tornou-se meu filósofo favorito, depois de le...